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ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS COMBATENTES DO ALGARVE



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ARTIGOS

E.U.A. – O IMPÉRIO DA GUERRA CONTRA ATACA

Por P. M. Pereira

A partir de finais da 2ª Grande Guerra Mundial, os Estados Unidos da América começaram-se a afirmarcomo uma potência imperial militar. O anúncio foi
dado às restantes nações do planeta, com a largada das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaqui. A partir de então, os E.U.A. não mais deixaram de se encontrar em conflito político-militar, directa ou indirectamente por todo o planeta, a começar pelos Estados sul-americanos, que hoje em dia, com excepção de Cuba, são uma espécie de suas herdades, passando pela Coreia, Vietname, Afeganistão, sem falar do golpe de mão para prenderem o presidente desse país, que se encontra a ferros nas masmorras do E.U.A., Haiti e, actualmente o atoleiro do Iraque.
Se é certo que a intervenção dos Estados Unidos na 2ª Grande Guerra Mundial, contribui decisivamente para a vitória dos aliados sobre os nazis e por isso, a Europa tem uma dívida de gratidão para com os americanos, por outro lado, destroçadas pela guerra as grandes potências europeias [Alemanha, França, Inglaterra…] e quebrada a sua influência e domínio político e económico sobre territórios do Médio Oriente, de África e por aí fora, Os E.U.A. ficaram com o «campo livre» para ditar as regras do jogo em campos antes dominados por esses países europeus.
A máquina de guerra americana, que se desenvolveu extraordinariamente a partir do momento em que os E.U.A. intervieram na 2ª G.G.M., não mais parou de crescer, porque essa passou a ser a industria número um americana. Eles são os aviões, os helicópteros, os navios, os submarinos, os veículos de todo o género, o armamento, as munições, as rações de combate, os fardamentos e equipamentos, os medicamentos, os combustíveis e, hoje, cada vez mais, também os componentes electrónicos em terra, no mar, no ar, e aeroespacial.
Com o fim da 2ª. G.G.M., foi criado um clima de tensão político-militar entre nações, que em alguns casos haviam estado juntas no combate ao inimigo comum: as potências do Eixo [Alemanha, Japão, Itália…]. Concretamente, os E.U.A. e a União Soviética, viriam a ser os promotores da N.A.T.O., o primeiro, aglutinando vários países ocidentais incluindo Portugal e, do Pacto de Varsóvia, o segundo, em torno do qual gravitavam vários países de Leste, que após a queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989 se democratizaram, desligando-se da U.R.S.S., ela própria, fragmentando-se e entrando na via democrática pela batuta de Mikhail Gorbachev, transformando-se numa Federação de Estados, a Federação Russa.
Terminavam assim, quatro décadas de Guerra-fria, comandada pelas duas maiores super-potências do planeta: os E.U.A. e a U.R.S.S.. Foi, portanto, nesta etapa da História, que a América entrou em crise económica, porque a Guerra-fria implicava uma permanente corrida aos armamentos, por parte das super-potências. A crise instala-se e as indústrias da guerra americanas e suas associadas começam a perder biliões de dólares. Havia que se “inventar” um novo inimigo, para continuar a alimentar a indústria da guerra, dado que os regimes comunistas se haviam finado. «Inventou-se» assim, o Eixo do Mal [Irão, Iraque, Coreia do Norte, China, etc.]. Numa primeira fase, o presidente Bush pai e, mais recentemente, numa segunda edição revista e aumentada, a partir da chegada ao poder, o Bush filho. O pai escaqueirou o Iraque na primeira guerra do Golfo, a pretexto da defesa do regime feudal do Kuwait que tinha fugido após a invasão do seu território por Sadam Hussein. A realidade era a defesa dos poços de petróleo americanos. O filho, por seu turno, escavacou o miserável Afeganistão, porque os Talibans eram uns tiranos e, por ultimo, acabou de vez o trabalho do pai, no Iraque, porque existiam por lá enormes arsenais de destruição massiva, mais os rentáveis poços de petróleo que bem falta fazem para alimentar a indústria americana.
Assim que chegou ao poder, em 2001, George W. Bush, talvez pelo facto de ser natural do Texas e ter visto muitos filmes de Cow Boys, criou uma cóboiada, traduzida pela implementação do projecto do escudo anti-mísseis, denominado Guerra das Estrelas, à revelia dos tratados internacionais assinados entre os E.U.A. e a desmantelada U.R.S.S. durante a Guerra-fria e recusou-se a assinar o Protocolo de Quioto, dando assim o mote ao seu rumo de governação, marcando bem a posição de confronto com todos os países que não se acolherem à órbita da América.
Não deixa de ser insólito notar, que Bush foi eleito com menos votos expressos que o seu rival democrata Al Gore, num burocrático e complexo sistema eleitoral e jurídico, que nem numa república bananeira seria possível. Com Bush foi possível, pois se a sua campanha política até foi subsidiada por empresas de armamento, petroquímica e farmacêutica, entre outras…
Os atentados do 11 de Setembro de 2001 foram o pretexto que lhe faltava para implementar um programa de supressão de liberdades individuais e de intervenções militares contra os terroristas. Estes atentados foram classificados por ele como uma acto de guerra, proclamando que «esta é uma guerra do bem contra o mal, e o bem vai vencer», conseguindo para actos militares a aprovação pelo Congresso de um orçamento suplementar de 40 biliões de dólares. Assim, empunhando a bandeira da guerra contra o terror, Bush levou o exército americano a países conflituosos como as Filipinas, Geórgia e Colômbia.
O apelidado programa Guerra das Estrelas, partiu de uma ideia lançada pelo presidente Ronald Reagan, em 1983, com o fim de proteger os Estados Unidos de ataques nucleares, que então foi baptizado de Iniciativa de Defesa Estratégica.
Embora existam indícios de que Reagan e parte substancial do Pentágono acreditaram na viabilidade do escudo espacial para proteger os Estados Unidos, a verdade é que para muitos sectores do governo e da sociedade ele não foi pensado apenas como uma arma estratégica. Para o Pentágono e para a indústria bélica e aeroespacial, ele significava um substancial aumento de disponibilidade de verbas e um grande motor para imprimir mais força e velocidade produtiva à superioridade tecnológica americana no mundo, enquanto que para a linha dura do governo de Reagan, era uma forma de pressionar a União Soviética, forçando-a a criar algo do género, o que pôs em pânico a cúpula do regime soviético com essa possibilidade, uma vez que a economia do país, já em plena decadência, não tinha capacidades de competir na corrida. Foi a visão dessa limitação que contribuiu para a ascensão de Mikhail Gorbachev e das suas propostas, em 1985, para reformar o seu país.
Terminada a Perestroika e a União Soviética, as justificações para um escudo espacial daquela envergadura, terminaram. Mesmo assim, dezenas de milhões de dólares foram aplicados no desenvolvimento da tecnologia do escudo do Governo Bush, ideia que se foi desenvolvendo de forma mais ambiciosa, baseada em mísseis de terra, com o único objectivo de proteger algumas áreas-chave do território americano.
O governo de Clinton continuou a investir no projecto, mas com um objectivo mais abrangente: uma rede de radares, satélites e mísseis anti mísseis e por aí fora. No entanto, Clinton, apesar de autorizar o desenvolvimento da tecnologia, preferiu deixar para o seu sucessor a decisão de instalar ou não o sistema.
Em termos militares este projecto encaixa-se como uma perfeita luva na actual doutrina militar americana: a guerra só pode ser feita desde que não existam riscos de civis ou militares americanos morrerem. Porém, este escudo não é simplesmente uma arma. Representa uma forma de injectar rios de dinheiro na indústria aeroespacial, bélica e electrónica norte-americana, garantindo o predomínio americano nesses ramos por muitos anos. Cortar agora nos programas sociais e investir na indústria bélica, é uma tradição republicana que George W. Bush não quer quebrar.
Se o escudo espacial funcionar, consolidará ainda mais a supremacia militar americana e tem a virtualidade de reduzir a Rússia e a China à categoria de potências militares de segunda classe. Por seu turno, os europeus ocidentais também não se sentem tranquilos com essa demonstração de poder e da superioridade bélica dos E.U.A., no entanto, nem a China nem a Rússia tem condições de impedir os desejos de Washington e muito menos de criarem algo para contrapor ao projecto dos Estados Unidos. A recente proposta de Vladimir Putin, convidando os europeus ocidentais a financiarem um escudo russo-europeu, demonstra {caso não tenha sido mais que uma operação de cosmética}, ou a ingenuidade ou o desespero dos russos.
O poderio militar americano é, incontestavelmente, dominante a nível planetário. Mais de 250 mil homens encontram-se permanentemente no activo, milhares de aviões, navios, porta-aviões e muita tecnologia suportam as ambições do executivo norte-americano. Uma palafrenália de armas secretas ou semi-secretas, como tanques e helicópteros cada vez mais sofisticados, projécteis de maior alcance, mais rápidos e capazes de produzir maiores danos ao inimigo, enquanto que a orientação por satélite aumentou a precisão dos mísseis. A bomba T, que cria uma parede de fogo, a secreta bomba E, que derrete circuitos eléctricos e as bombas Daisy Cutter, complementam este quadro de terror. No entanto, aparentam-se muito pouco eficazes na guerra urbana, como tem sido demonstrado todos os dias no Iraque, a título de exemplo.

CRÓNICA

Por Mário de Freitas

Νaquele dia, rezava o calendário, era feriado – Mãezinha hoje não vou a “Boane” – é feriado!
Era o primeiro dia de “tropa” – mas por ser feriado “entendi” que não haveria a apresentação anunciada para o badalado primeiro dia de tropa – Tens a certeza? Não queres que o teu Pai te leve? Não – não vale a pena, amanhã apresento-me e começarei uma nova etapa na minha vida!
No dia seguinte lá fiz os cerca de trinta quilómetros que separavam Boane (Centro de Formação Militar) de Lourenço Marques (Capital de Moçambique e a minha cidade Natal).
A recepção foi calorosa, pelos mais conscientes que tinham a percepção de que na tropa não “havia feriados”.
Os restantes, dos quais eu fazia parte, ainda irreflectidos do que, realmente, a partir daquele dia tudo se iria, definitivamente reformarem.
Rejubilavam pela inesperada recepção! Só depois vim a saber que as “boas vindas” correspondiam a um castigo antes mesmo da “cena” ter iniciado.
Perdêramos a dispensa, no fim-de-semana, devido à leviandade dos novatos recrutas!
Era o início de uma longa – longa caminhada militar…
Acima de tudo aprendi que o poder é essencialmente amoral, e a principal capacidade a adquirir é a de observar as circunstâncias, e não o bem ou o mal.
O poder é um jogo – nunca é demais repetir – e no jogo não se julgam os adversários pelas suas intenções, mas pelo efeito das suas acções. Medindo as estratégias e o poder de quem o usa pode-se “ver” e “sentir”. Quantas vezes as intenções de alguém serviram apenas para perturbar e enganar!
É natural que as pessoas disfarcem os seus actos com todos os tipos de justificações, alegando sempre terem agido por generosidade.
Compreender os motivos ocultos das pessoas é o maior conhecimento de que se precisa para conquistar o poder. É o que abre possibilidades sem fim de embuste, sedução e manipulação.
No final de seis meses era louvado! Seguiram-se mais três anos…
Fui enganado por aqueles que tendo o poder não conheciam a realidade dos factos.
Fomos enganados!

PORQUE COMBATEMOS NUMA GUERRA SEM FUTURO?

Por Helder Neto

Pela manhã, no Anexo do Hospital Militar de Lisboa, começavam as tarefas dos enfermeiros.
Das províncias ultramarinas chegavam diariamente mutilados física e psicologicamente sem perspectiva de utilidade social. Tratar e conviver com estes homens era um trabalho árduo e doloroso.
Quando um enfermeiro fazia a sua primeira experiência com esse mundo, apenas conhecido teoricamente, confrontava-se com uma verdade terrível. Depois era a vacina e aprender o melhor processo para recuperá-los o melhor possível.
Porque combatemos numa guerra sem futuro? Porque esconderam da sociedade civil este drama, sem a preocupação de recuperarem estas almas perdidas? Porque demoraram tantos anos para reconhecer o stress de guerra, quando afinal os EUA já o tinham feito na guerra do Vietname? Porque iludiram os ex-combatentes e suas famílias na solução de todos os problemas, quando apenas se resolveu a contagem do tempo e nem sempre isenta de alguma confusão?
Há insatisfação dos ex-combatentes e do povo, na medida em que a revolução de Abril prometendo um deslumbramento se transformou numa fraude. Poderá haver esperanças? O futuro dirá.

IN MEMÓRIA DE PEDRO DE FREITAS

Por Pedro M. Pereira

A propósito da passagem de mais um aniversário da Batalha de La Lys, em França, travada em 9 de Abril de 1918, que se comemora no próximo mês, onde foram mortos 7.098 praças e 327 oficiais portugueses sobre a metralha dos alemães {cerca de 35% dos efectivos portugueses na Flandres}, não resistimos à tentação de falar no nosso saudoso Amigo e antigo combatente, que foi Pedro de Freitas, um dos homens mais notáveis que ao longo dos tempos Loulé produziu, como o foi igualmente o almirante Mendes Cabeçadas, o Eng.º Duarte Pacheco, ou o poeta António Aleixo, entre outros, por esse facto tem o seu nome inscrito na toponímia da sua cidade.
Nascido e criado na sua terra natal, veio, posteriormente, já adulto, a viver no Barreiro onde assentou arraiais, rodeado de uma numerosa prol, nessa cidade vindo a falecer.
Travámos amizade com Pedro de Freitas já lá vão mais de trinta anos. Nos idos de setenta, logo após a Revolução de Abril, fomos eleitos ambos, membros da Direcção da delegação da Liga dos Combatentes no Barreiro, durante dois anos, onde, apesar da sua então avançada idade, se mantinha como um dos mais dinâmicos de entre nós e sobretudo, dos mais entusiastas. Pedro de Freitas era, efectivamente, um homem sempre bem disposto, por vezes, algo truculento, tendo deixado produzida uma vasta obra literária e de investigação, de entre a qual merece destaque um estudo exaustivo sobre a História da Música Popular em Portugal e uma monografia do seu concelho intitulada: Quadros de Loulé Antigo, pese embora tenha sido um autodidacta.
Dos tempos em que foi combatente na 1ª Grande Guerra Mundial, para além das recordações, possuía entre outras condecorações nacionais e estrangeiras, nomeadamente, francesa e inglesa, a mais alta distinção militar portuguesa, a Ordem da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, poucas vezes atribuída a militares de baixa patente, como foi o seu caso, que na Flandres combateu como... 1º Cabo corneteiro.
Perguntámos-lhe um dia – porque a curiosidade era muita – que façanha havia cometido para ter sido agraciado com tão alta distinção. Respondeu-nos candidamente: - A tocar corneta.
Pensámos que era mais uma das suas brincadeiras e por isso nos rimos. Ele também se riu connosco e acabou por contar esse episódio da guerra de trincheiras. Assim: - Era Inverno. Há muitos dias que chovia sem parar. Chuva gelada. Encontrava-me com o que restava da minha Companhia nas trincheiras, atascado em água, lama, ratos, feridos, mutilados, mortos e... muita fome. Os boches [alemães] não paravam de nos metralhar. Nós aguentávamo-nos como podíamos, já quase sem munições, desmoralizados e poucos homens válidos, por isso, a nossa atitude resumia-se, tão só, a uma fraca resistência ou antes, sobrevivência. Às tantas, não sei o que me passou pela cabeça, peguei na corneta, saltei o valado, comecei a tocar o toque de marcha e avancei sobre as linhas inimigas. Talvez espantados, os alemães pararam por pouco a metralha e os meus camaradas que restavam saltaram também para cima da trincheira e acompanharam-me disparando sobre os alemães, que acabaram por fugir em debandada».
É desta têmpera que se fazem os heróis. Dizemos nós...
Uma nota curiosa ainda: Pedro de Freitas era cidadão honorário de Cartaya, localidade espanhola situada a poucos quilómetros da nossa fronteira algarvia.

GOVERNO RETIRA DIREITOS AOS EX-COMBATENTES OSTOMIZADOS

Por José Rosa Sampaio

Os inúmeros ataques do governo socialista aos direitos adquiridos do cidadão comum, nomeadamente os deficientes, atingiram desta vez um perfeito escândalo ao retirar aos ostomizados, geralmente doentes oncológicos, não pertencentes ao SNS, o direito há muito adquirido de poderem levantar mensalmente e de forma prática e cómoda os seus materiais de colostomia nos respectivos Centros de Saúde.
Se o governo, o senhor ministro da saúde e os Centros de Saúde acham que estes ostomizados abrangidos pelos subsistemas, que são uma minoria, nomeadamente os contribuintes para a ADSE, que até descontam uma parte para a Segurança Social, não têm o direito de levantar os seus materiais nos CS, porque não cobrar directamente esse serviço a estas instituições, que no caso da ADSE é o próprio Estado.
Os ostomizados, como portadores de doença incapacitante e de vários graus de deficiência são pessoas com várias limitações e não podem sujeitar-se a mendigar pelo correio ou a comprar nas farmácias os materiais de que diariamente necessitam, ainda por cima esperando meses par serem reembolsados, por vezes não totalmente. Além disso, este despacho é puramente desumano e de uma enorme injustiça, revelando ignorância e desprezo pela situação dos ostomizados.
Muitos destes ostomizados são também ex-combatentes, e a doença oncológica que os vitimou é em muitos casos resultado da situação de risco e de carência em que estiveram envolvidos, contactando inclusivamente com situações sanitárias quase inexistentes o que os fez portadores de bactérias que poderão ter sido causadoras da sua doença.
Já agora deixo aqui a ideia tendente à criação de uma Associação de Ostomizados do Algarve, uma vez que a que a mais próxima está em Lisboa e pouco facilita a vida aos ostomizados do sul do país.
Pede-se também aos ex-combatentes algarvios, membros ou não da nossa associação, que se dêem a conhecer para que juntos possamos lutar contra este e outros ataques de um governo desumano, que poupa nos menos favorecidos mas tem mãos largas e milhões para estádios de futebol, otas, tgv’s, esquadrilhas de F-16, fragatas, institutos obscuros e para engordar os seus clientelismos.

NUNCA MAIS ESQUEÇO ESTE NATAL!...

Por Joaquim Luís Santos

Decorria o ano de 1968, eu era nessa altura um jovem 1º cabo ao serviço do Exército Português, em missão de soberania na província Ultramarina de Angola.
Aproximavam-se as festividades do Natal de 1968 e por essa altura eu e mais os meus camaradas do meu grupo de combate calcorreávamos as matas à procura do “IN” ou dos seus acampamentos.
Com o raiar do dia de Natal, foi-nos indicado uma roça de café para aí almoçarmos. Chegados que fomos, deu-se início ao «almoço». Cada qual comeria a sua ração de combate e sem ordens para nos aproximarmos da cozinha local, eu não esperava grandes surpresas da minha ração, que seria, pensava eu, de uma Dolca, uma lata de sardinhas, duas latas de carne de porco assada e uma de paté, talvez também um doce e pouco mais…! Porém quando abri a dita cuja, a surpresa ainda foi maior, porque lá dentro entre outras coisas, estava uma canja de galinha a que tinha de se juntar água quente para ficar comestível.
Resignado com o meu almoço procurei pelas proximidades uma lata para pôr ao fogo, que já tinha entretanto ateado. Porém como uma desgraça nunca vem só, verifiquei que não tinha uma colher e então lá fabriquei uma colher que ainda conservo com enorme carinho.
Então, depois de todas estas peripécias e, enquanto saboreava aquela canja de galinha, murmurei para os meus camaradas que estavam ao meu lado: “Nunca mais esqueço este Natal!...”

Os dois Monchiquenses heróis-mártires de
Madina do Boé, em 1965

José Rosa Sampaio

Ao percorrer a Internet deparei com uma página mantida por Luís Graça, sociólogo e professor da Universidade Nova de Lisboa, onde é possível consultar abundantes testemunhos e documentação sobre a Guerra Colonial na Guiné. Na lista de falecidos das unidades que por volta de 1964-65 operavam na zona de Nova Lamego, aparecem dois naturais do concelho de Monchique, ambos pertencentes à Companhia de Caçadores 727, que por ironia do destino faleceram no mesmo dia e na mesma operação.
Pensei que não seria demais recordar estes dois jovens monchiquenses, que o azar fez com que não regressassem a casa, avançando com alguns dados históricos, que certamente as próprias famílias desconhecerão.
Avelino Martins António era natural da freguesia de Alferce, sendo 1.º cabo atirador. Tombou na estrada de Madina do Boé/Gobije, em 30 de Janeiro de 1965, tendo sido inumado com as devidas honras militares no cemitério de Nova Lamego.
José Maximiano Duarte, soldado atirador, era natural da freguesia de Monchique. Participante na mesma acção militar foi ferido gravemente e pereceu em consequência dos ferimentos recebidos. Ao contrário do seu companheiro de infortúnio, cujo corpo parece que ficou no cemitério da Guiné, José Maximiano Duarte foi sepultado no cemitério de Monchique.
A Companhia de Caçadores 727 foi formada no Regimento de Infantaria n.º16, de Évora. Chegou à Guiné a 14 de Outubro de 1964 e fez a instrução de adaptação operacional em Có-Pelundo e Prábis. Em Novembro de 1964 destacou um dos pelotões para reforço do Batalhão de Caçadores 506, que foi reforçar a guarnição de Madina do Boé. Em 5 de Dezembro do mesmo ano a unidade foi transferida para reforço e reserva da Companhia de Caçadores 512, mantendo um pelotão em Madina do Boé. A Companhia tomou parte em diversas acções levadas a cabo na região de Nova Lamego e Madina do Boé, sendo de destacar a emboscada montada contra o inimigo na estrada de Madina do Boé/Gotije, que causou grande número de baixas ao inimigo e dez mortos entre as nossas tropas (dois deles alferes milicianos), contando-se entre os que caíram os nossos dois conterrâneos. Finda a comissão a unidade regressaria à metrópole em Agosto de 1965.
O que aqui ficou dito passou-se há 40 anos e a memória dos homens é bastante curta. Numa época em que a morte está tão banalizada pelos acidentes na estrada, as doenças de sociedade e a televisão, a muitos parecerá estranho falar deste dois heróis mártires da já distante Guerra Colonial.
No cemitério de Monchique foram enterrados mais de duas dezenas de militares que morreram em combate ou de acidente nas três colónias africanas. Infelizmente nunca ninguém se lembrou de criar um talhão que perpetuasse a sua memória e a sua abdicação em prol da Pátria.

In Jornal de Monchique, n.º288, de 28.02.2007, p.5.

Os Livros sobre a Guerra Colonial

José Rosa Sanmpaio *

«Já lá vai Pedro Soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada».

in «Romance de Pedro Soldado», Praça da Canção (1965), de Manuel Alegre.

O 25 de Abril deu origem a que começassem a aparecer nos escaparates inúmeros livros que abordam a temática da Guerra Colonial, a maior parte deles escritos por aqueles que a viveram e nela participaram, por vezes de forma bem dramática. Essas obras têm abordado sobretudo géneros como a ficção, a poesia, as memórias, os estudos e o ensaio.
Considerada por alguns como uma literatura inferior, que ainda hoje tarda a impor-se, alguma dessa ficção salvou-se devido a autores como António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979); Manuel Geraldo, Sangue Negro, Sangue Branco e o Suor da Terra (1973); Fernando Assis Pacheco, Walt (1979); Mário de Carvalho, Era uma vez um Alferes (1985); Wanda Ramos, Percursos (1981); Álvaro Guerra, O Capitão Nemo e Eu (2000); José Martins Garcia, Lugar de Massacre (1975); Domingos Lobo, Os Navios Negreiros não sobem o Cuando (1993); Manuel Alegre, Jornadas de África; Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios (1988); Carlos Vaz Ferraz, Nó Cego (2.ª ed.1982); e Rui Vieira, Guardador de Almas (2005).
O mesmo se poderá dizer da poesia, cujos principais títulos e cultores surgiram na década de setenta: Manuel Alegre, em Praça da Canção (1965), que insere o famoso «Romance de Pedro Soldado», cantado por Adriano Correia de Oliveira, e em O Canto e as Armas (1974), nos memoráveis poemas «As Colunas Partiam de Madrugada», «Às Onze da Manhã de Mil Novecentos e Sessenta e Dois», «O Cristo» e «Metralhadoras Cantam»; Fernando Assis Pacheco, Catalabanza, Quilolo e Volta (1976); Sá Flores, Justiça, Flor e Arado (1978), uma obra vinda de um deficiente das Forças Armadas.
As memórias ou testemunhos de vivências, tantas vezes traumatizantes, também abundam. Tenho presente, o livro de Vasco Lourenço, No Regresso Vinham Todos (1975), «o relato dos feitos da Companhia n.º 2549», unidade que este militar de Abril comandou em terras da Guiné; Guerra colonial: quantos fomos?, de Gil de Azevedo Abreu (1999); Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes; Os Anos da Guerra, 1961-1975. Os Portugueses em África. Crónica, ficção e história, organização de João de Melo (2.ª ed.1998); A Guerra Colonial, Realidade e Ficção, org. de Rui de Azevedo Teixeira; Memórias das Guerras Coloniais, de João Paulo Guerra; Diário de Guerra: Angola 1961-1963, de Etelvino da Silva Baptista (2000); e Diário do Tempo de Guerra (1966-1970), de A. do Carmo Reis (2001). Entre essas memórias encontram-se alguns livros de cariz saudosista, como é o caso do clássico Sangue no Capim, de Reis Ventura, do qual possuo 14.ª edição.
Nos últimos anos têm saído da pena de especialistas e académicos bastantes estudos, sendo de destacar: A Guerra em Africa (1961-1974), Estratégias adoptadas pelas Forças Armadas (200), do Major-general Sérgio Bacelar; Guerra de África. Angola (1961-1974), de Rui de Azevedo Teixeira, publicado recentemente na colecção editada pela Academia Portuguesa de História; A Guerra de África (1961-1974), 2 vols., de José Freire Antunes; Ex-combatentes da guerra colonial: experiência e identidades: ensaio de construção de um objecto antropológico, tese de mestrado em Antropologia, de Daniel Seabra Lopes (1998); Contra-Insurreição em África (1961-1974), de John P. Cann (1998); Adeus até ao meu Regresso: o Movimento Nacional Feminino (1961-1974), de Sílvia Espírito Santo (2003). A História de Portugal, dir. por João Medina, vol. XVII, pp.491-604, insere um importante estudo da autoria de Aniceto Afonso e Carlos Vale Ferraz.
Por ultimo urge aqui referir também as reportagens, crónicas e artigos publicados na imprensa, de que o melhor exemplo é o extenso dossier «Memória da Guerra Colonial», saído em O Jornal, em 1980-81, e os cadernos «Os Anos da Guerra Colonial (1961-1974)», do algarvio Manuel Catarino, publicados no 24 Horas.
Defendo que na futura sede da Associação dos Antigos Combatentes do Algarve (AACA) deveria ser criado um Centro de Documentação da Guerra Colonial, espaço esse onde fosse possível reunir livros, revistas, artigos, manuscritos (há muitos de memórias na gaveta!), fotos, crachás, filmes e documentários, e objectos alusivos a este período da História de Portugal. Poder-se-ia mesmo apelar aos sócios para que oferecessem ou aí depositassem os livros ou documentos que possuíssem. Outra solicitação poderia ser endereçada a instituições como as bibliotecas públicas, para que disponibilizassem algum do material bibliográfico que já possuem.
Todos juntos contribuiremos para que a Guerra Colonial não seja esquecida pelas actuais e futuras gerações, recordando o sofrimento por que passaram milhares de jovens que hoje são os seus pais, avós e bisavós.

* Professor e ensaísta, antigo combatente em Angola, 1971-1973.






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